Blitz (Portugal), December 30, 1986

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Blitz (Portugal)

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Elvis Costello — Napoleão outra vez


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   Luís Peixoto

Levianamente, quando alguém se predispõe a pensar que sobre a pop já está tudo dito e redito, eis que uma vez mais surge à boca de cena o eterno e inesgotável Elvis Costello (ou algum heterónimo por ele). E então tudo regressa ao ponto de partida, ou seja tudo volta a ser posto em causa. Algumas situações voltam a ser como dantes; outras, pelo contrário, conhecem uma reviravolta tão grande que quase nos obrigam a questionar sobre o conceito de pop que alimentámos anos e anos a fio.

EM segredo, quando miramos a capa e contracapa de cada novo disco de Elvis Costello, frequentes vezes damos connosco desejando quo Rui Guedes, o marecidamente eleito «prospector e descobridor do raridades literárias nacionais », ao abrir mais unia velha arca prostrada no sólão de um qualquer casarão do Chiado, posse vir a descobrir para Fernando Pessoa mais um ou dois heterónimpa capazes de engrossarem a obra de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caelto o Bernardo Soares.

Isto porque, o nosso mesquinho e ao mesmo tempo inconfessável orgulho lusitano, principia a preocupar-se com o facto de o truculento e talentoso. Elvis poder vir a possuir um maior número do heterònimos que o portuguesissimo e agora comemoradissimo Pessoa.

É que à nunca por demais esgotada personagem de Costello, haverá que juntar os heterónimos Little Hands of Concrete. The Imposter, Coward Brother, Declan Patrick Aloysius MacManus e, muito recentemente. Napolean Dynamite. Num mais nem menos.

Para um artista que alguma Imprensa britãnica dava como psicologicamente morto, não esta nada mal não senhor. Mas vamos por partes... Em finais de 1985 Costello atravessou um período mau da sua vida, consequentemente de sua carreira. Seria o americano T-Bone Burnet, a tirá-lo de uma profunda letargia existencial e artistica. Nessa altura Elvis decidiu «matar» Costello. optando por passar o chamar-se Declan MacManus.

«The King of America» já de 1986, seria o álbum de ressurreição, o primeiro de MacManus e decididamente um dos melhores de Costello. Um disco que marcou a relação afectiva do pequeno «enfant terrible» com Cait O’Riordan (uma das integrantes dos Pogues) e o divórcio musical e instrumental com os até ai sempre fiéls Attractions. Um disco que recuperaria por completo o enorme talento de Elvis Costello, ou daquilo que se lhe queira chamar.

«Blood and Chocolate»

Inesperadamente. cerca de oito meses depois da edição de «King of America», Elvis regrossa como Napolean Dynamite e propõenos outra obraeprime: «Blood and Chocolate

Tratase com efeito de um disco que para já traz Costello, aliás Napoleão, de volta a casa e aos braços doe Attractions, depois dos estrangeirismos vividos em «Punch the Clock», »Good Bye Cruel World» e «King of America».

Dir-se-ia que após a ineficaz sofisticação de «Cruel World» e do cosmopolitismo de «King». Napoleão sentiu necessidade de prospectar de novo os sons deixados a pairar por alturas dos álbuns «Get Happy» e «Trust», Poder-se-á mesmo afirmar que, após urna visão do mundo um pouco mais ligeira e bem humorada, naturalmente compreensivo, num periodo de recuperaçao psicológica, o autor tenha voltado a dimensionar o quotidiano como um cenário de obsossŏes frustrações e horrores intermináveis.

«Blood & Chocolate» aliás como o seu nome deixa porceber, é um disco amargo-doce onde todas as imagens agradáveis ou se transformam em pesadelos ou têm a respectiva contra-partida em termos desagradáveis

Não obstante, ou talvez por causa disso mesmo. «Blood & Chocolate», o disco estreia de Napolean Dynamite. é um dos trabalhos mais verdadeiros de Elvis Costello e um dos mais honestos, inclusive do ponto do vista musical.

Disse-se no principio que cada novo disco do artista obriga a reequacionar a pop. Pois «Blood & Chocolate» não foge à regra e a seguir aos «americanismos» de «King of America» ele traz Costello de novo para Inglaterra, ate ao pop de sempre, por vezes melódico, por vazes rugoso , quase sempre marcado por arranjos peculiares e partes vocals apaixonadas e ou tempestuosas.

Gravado ao vivo nos Olympic Studios de Londres, «Blood & Chocolate», na suprema colleccão de canções que encerra, remete-nos para o Elvis Costello periodo «This Year' Model» mas não apenas. A espaços. esquece-se que Dylan já existiu e parte para épicos de horror e maldizar como «Tokyo Storm Warning»: revisita as inesqueciveis atmosferas de «Mother» e de «Plastic Ono Band», visceralmente cantadas por John Lennon («Battered old Bird»), reflectese nos arranjos discordantes do Brian Eno época «Here Comes the Warm Jets» («Poor Napolean» deixa-se prender nas malhas-da guitarra que Neil Young exemplarmente tricotou para «Words» do álbum «Harvest» («I Want You»),

No meio de todo isto, «Blood & Chocolate» obriga o experimentado o enciclopèdíco produtor que é Nick Lowe a ter que fazer uso da sua inconfundível guitarra acústica como forma quase última de influenciar o rumo dos acontecimentos nas salas cansadas do Olympic Studios. Como um regresso às origens (a única nota de cosmopolitismo exarada deste disco são as fichas e créditos indicados em esperanto), «Blood & Chocolate» é de saudar efusivamente. Em paralelo elo (apresenta também um dos mais honestos discos de Costello, bem como um dos mais dificels de encaixar por parte da queles que nasceram para este autor depois de «Imperial Bedroom».

Todavia, em termos exclusivamente musicals, no último disco de Costello reencontra-se de novo a fascinação da pop dos grandes momentos. Uma espécie de celebração do eterno. qualquer coisa que obriga a repensar tudo de novo.

Notavel como todos os golpes de genio de Napoleão...

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Blitz, No. 112, December 30, 1986


Luís Peixoto profiles Elvis Costello.

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